José Dirceu utiliza malandramente a seção ‘Tendências e Debates’ da Folha, com o pretexto de falar sobre a eventual candidatura de Marina Silva, para tentar ressuscitar a pecha de privatista para o mal que o PT conseguiu colar no PSDB no segundo turno das eleições presidenciais de 2006. Não fossem algumas das privatizações e liquidações de empresas, serviços e bancos públicos, liquidação de bancos privados e a cobertura de rombos em estatais, durante o governo FHC, certamente o Plano Real não prosperaria e hoje veríamos o lulopetismo se lambuzando ainda mais com o aparelhamento da máquina pública por seus camaradas gafanhotos e aliados comprados. Dirceu tenta desconstruir a nova opção partidária da senadora, porque o PV é um dos aliados de Lula e também da aliança PSDB-DEM, mas em nenhum momento responde à afirmação de Marina, de que não poderia continuar no PT para "convencer que o meio ambiente tem de ser prioridade" e porque "este é um governo insensível às causas sociais."

Não consegui segurar uma risada ao ler a afirmação de Dirceu de que o "PSDB fez uma opção, há quase 15 anos, por ser o partido das elites financeiras, quando a transição conservadora entrou em colapso após o impeachment de Collor" e que a "velha direita, desgastada pela longa ditadura militar, não era mais capaz de protagonizar a engenharia do Estado neoliberal." Vindo de quem vem, como principal interlocutor político das reais intenções de Lula, já que a sua ministra-candidata Dilma Rousseff, também conhecida como "José Dirceu de saias", revelou-se mitômana, não deixa de ser curioso averiguar mais profundamente os interesses que o animam a reocupar espaços no centro do poder e nas cercanias do atual inquilino do Palácio do Planalto.

Os banqueiros privados brasileiros e estrangeiros nunca antes na história deste país foram tão felizes como agora. Na própria edição da Folha, há uma matéria destacando que o crédito privado é o que mais cresce sob Lula e que, somente durante a crise, frearam os financiamentos, enquanto os controlados pelo Estado agiram no sentido contrário. O pedágio dos juros altos que mantém a felicidade geral dos banqueiros não foi socializado na crise, sobrando para o Estado, a quem deveria competir apenas cuidar da saúde, educação e infra-estrutura de saneamento, habitação e transportes.

O mote para 2010 contra o PSDB, atribuindo-lhe a pecha de "velho programa privatista", está colocado claramente por Dirceu, com a intenção de mobilizar algumas corporações governamentais, mais sujeitas ao discurso das sereias lulopetistas. Esse modelo de Estado só interessa a governos ditadores, de esquerda ou direita. E ao PT, que obviamente se apresenta como reacionário às privatizações que sabidamente não estão em pauta ou na agenda dos próximos governos, de qualquer origem partidária, para seduzir demagógica e politicamente uma legião de companheiros.

Neste mês, para se ter uma idéia dos gastos do governo federal, apenas com pessoal, foram 21% a mais em comparação com o mesmo período do ano passado. O governo federal, sob os auspícios de José Dirceu, ideólogo e formulador de políticas de Lula, sinaliza que a sua governabilidade e manutenção no poder não tem preço, alertando a sua companheirada para o temor do crescimento do seu próprio desemprego da máquina do Estado.

Agora, se Marina Silva decidiu abandonar esse barco, ideal nas palavras do deputado federal do PT cassado, para tentar acender a chama das suas crenças em outro porto, com uma nova agenda de alerta para o Brasil, qual a razão de uma interrogação no título da sua "alternativa verde" ? Fecho, endossando uma reflexão de Élio Gaspari, que cabe também sobre o estratagema de Dirceu: "num regime democrático, com imprensa livre, os pequenos truques produzem grandes desastres."

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