"Sangrando" há mais de um mês, hoje José Sarney assinou a anulação dos 663 atos secretos produzidos desde 1995, determinando a devolução do dinheiro daqueles que geraram custos irregulares ao Senado. A cena da chegada no Congresso Nacional pareceu uma montagem planejada por marqueteiros, com uma folha de papel nas mãos e um meio sorriso enfeitando o canto da boca, a decisão anunciada era esperada desde que esse tipo de ação foi descoberta pela comissão de sindicância. Mas, factóide ou não, ainda há muitos pontos a esclarecer e condenar no Senado, além nomeações, exonerações, aumento de salários e ampliação de verbas de forma sigilosa.

Estou convencido de que o senador Sarney precisa ficar no cargo até a apuração e julgamento da sua responsabilidade com esse tsunami de denúncias. Discordo daqueles que resumiram essa mesma opinião, alegando que a sua permanência serve apenas para impedir um golpe da oposição que tomaria para si a direção do Senado. Uma falácia, se tomarmos como referência a bancada do PSDB, que na última disputa optou por uma composição para eleger presidente o senador Tião Viana (PT-AC).

A preocupação do lulopetismo, ao sustentar Sarney, mesmo sabendo que ninguém poderia imaginar o PT no avesso do próprio PT, ocorre não porque o presidente Lula é solidário com os seus aliados, mas porque ele confia no poder de protelação da instalação da CPI da Petrobrás e numa possível aliança com a maioria do PMDB no país para o ano que vem. E, como se não bastassem até agora os gestos e pressões do Palácio do Planalto pró-Sarney, a anulação dos atos secretos realmente cheira a armação.

Os demais membros da Mesa Diretora do Senado souberam da decisão, como todo o Brasil, pela imprensa. A notícia surpreende porque é boa para começar a varrer as mazelas da atual crise política. Contudo, méritos e desconfiança da iniciativa à parte, não lí ou ouvi uma opinião, até o momento de postar este comentário, que me convencesse da sua eficácia.

Por isso, continue no cargo, Sarney, para que os capítulos da história que protagoniza recebam sem interrupção os holofotes de todas as mídias e sirvam de exemplo sobre o modo que não se deve exercer funções públicas no parlamento ou em qualquer outro lugar.

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