Faz tempo que não ouço ou leio um comentário sobre as exceções à regra no comportamento dos parlamentares no Congresso Nacional. A avalanche de denúncias, ora no Senado, ora na Câmara dos Deputados, desqualifica a política que é a essência do processo democrático. Os fins não justificam os meios utilizados para dar sobrevida às nossas representações populares e federativas. Há uma generalizada quebra de confiança na viabilidade desses fins, que sempre vitaminam candidaturas, deixando uma interrogação sobre os possíveis resultados do ano que vem, quando haverá eleições para a presidência da República, governança dos Estados, dois terços do Senado, deputados federais, estaduais e distritais. O presidente Lula, que poderia aproveitar a sua aprovação popular e recomendar mais transparência e reformulação das atuais práticas políticas, é o primeiro a desqualificar o papel de todas as mídias e de quem ousa uma mensagem por mudanças.

O episódio Sarney não deixa de ser um desserviço ao Brasil. Nos últimos tempos, a pretexto de que o senador é uma figura incomum, pertencente a um dos principais partidos do país – o PMDB, o governo Lula e os seus petistas amestrados tentam dissimular as graves denúncias, ora com uma retórica sobre o respeito às tradições políticas brasileiras, ora com um contra-ataque às legendas de oposição. Acontece que entre os próprios petistas há o reconhecimento dessa inércia, aprofundando ainda mais os já elevados índices de desconfiança da sociedade.

O senador Tião Viana (PT-AC) afirmou em entrevista na ‘Folha’, que "Lula nada fez para evitar a desconstrução e a perda de autoridade moral do Congresso. Os partidos estão mais fracos e deteriorados do que antes de sua posse. E o Senado está em chamas".

Nos últimos dias, a imprensa divulgava relatório sobre a edição dos 663 atos secretos do Senado, dando conta que, sem distinção partidária, foram beneficiados ou obtiveram a chancela de, pelo menos, 37 senadores e 24 ex-parlamentares, desde 1995. PT, PSB, PDT, PTB, PR, PMDB, DEM e PSDB têm representantes na lista de congressistas beneficiários de nomeações em seus gabinetes ou que assinaram atos secretos da Mesa Diretora, criando cargos e privilégios.

Ontem, as falas gêmeas de Lula e Dilma Rousseff, de que o PSDB quer o afastamento de Sarney para ganhar o Senado no tapetão, revelam posicionamento leviano – justamente porque o PSDB apoiou o candidato do PT á presidência do Senado contra Sarney – e uma inconfessável e subliminar estratégia de manter o fogo cerrado sobre o senador, sem apurar de verdade os fatos, porque interessa a sua permanência no cargo e no mandato apenas para continuar sentado sobre a efetivação da CPI da Petrobrás.

Não cola o interesse de manter a governabilidade ou de cooptar o PMDB para as eleições de 2010. Essas deduções são simplistas demais, para quem é useiro e vezeiro em afirmar que as denúncias apenas acontecem por obra da oposição, e que não resulta em nada mesmo além do desgaste momentâneo. Mas acho fundamental contrapor a isso e fazer valer a cidadania, marcando nomes, mandatos e partidos, para não votar ou repetir o voto neles. O Congresso, a meu ver, não deve ser encarado como uma extensão familiar, igreja, circo ou balcão de negociatas. Dignidade e coerência precisam contaminar os seus pares.

Como analisou Dora Kramer, no ‘Estadão’ de quinta-feira, "descontadas as exceções de praxe… … as acusações são lançadas sobre uma Casa cuja lisura está sob suspeição em virtude de fatos divulgados, sendo vários comprovados e a maioria incontestáveis". Sem o esclarecimento disso tudo, com Sarney e os envolvidos no próprio Senado, permanecerá sobre o Poder Legislativo e a classe política a pecha, nivelada por baixo, de que todos são corruptos, coniventes ou covardes.

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