Faz dois anos e o senador Renan Calheiros enfrentava a opinião pública, por uma série de atos sobre a sua conduta pessoal e política, que contou com a complacência dos seus colegas senadores, que o absolveram, livrando-o da cassação. A história se repete, com José Sarney, desta vez com um tsunami de denúncias graves a chafurdar na lama até o mínimo de respeito que se deve ter com o Senado Federal. Lula reagiu em defesa do ex-presidente da República, cobrando respeito à biografia incomum de Sarney, porque a "descrença nos políticos é ruim para a democracia". E o gaúcho Pedro Simon pediu a sua renúncia, para diminuir a sua própria depressão e garantir "o direito que Sarney tem de respirar tranquilo". Farei o caminho contrário deles, acho que Sarney deve ficar no cargo até o fim da capacidade do Senado apurar, julgar, condenar e corrigir definitivamente todas as mazelas que envolvem uma instituição que renovará dois terços de seus membros em 2010.

Os argumentos dessa defesa estão nas contradições observadas todos os dias no Congresso Nacional e pela eficiência de todas as mídias. Quando Sarney afirma que há "campanha midiática" contra sua permanência no comando do Senado, reflito que ele está meio certo na sua constatação. As opiniões editoriais indicam que a sua continuidade na presidência colocará em dúvida as investigações das denúncias realizadas pela Casa. No entanto, o que faz desacreditar de um desfecho, aos inúmeros erros e abusos com o dinheiro público, é o comprometimento de praticamente todos os senadores com a facilitação de serviços ou mordomias, às claras no Diário Oficial do Congresso ou secretamente nas gavetas de diretores quase que vitalícios nos cargos.

Relembro que em 2001, quando o então deputado federal Aécio Neves assumiu a presidência da Câmara dos Deputados, ele surpreendeu a todos com uma mudança radical na estrutura administrativa da Casa, ao decretar o fim de uma era muito parecida à atual de Agaciel Maia, tirando do cargo de diretor-geral o funcionário Adelmar Sabino, há 18 anos no mesmo posto.

Naquela ocasião, as atividades de Sabino não se limitavam ao comando do bilionário orçamento da Câmara dos Deputados. Reportagem da revista "Época", em junho de 2001, destacava que ele conhecia a vida privada de muitos parlamentares. Sabia do saldo bancário, conhecia detalhes do cotidiano pessoal, especialmente dos parlamentares do baixo-clero (deputados sem atuação de destaque) e alguns o julgavam mais poderoso que os próprios deputados.

Destituído da direção-geral do Senado em março, após 14 anos de exercício da função, Agaciel Maia tornou-se um personagem temido. Josias de Souza, da ‘Folha’, em seu blog, percebeu que logo que começaram a pipocar as denúncias "houve desinteresse da grossa maioria dos senadores em apurar responsabilidades e identificar beneficiários", porque Agaciel também conhecia a vida de senadores e "embrulhava" muitos dos "presentes" em papéis secretos (há notícia de pelo menos 663 atos assim).

Os próprios senadores reconhecem que a instituição está no fundo do poço. Então, retóricas à parte, nos gestos tentativos de "preservação" ao "incomum" José Sarney, por Lula, Simon e Arthur Virgílio, é fundamental que ele não abandone a trincheira agora e garanta as condições necessárias às investigações com os seus esclarecimentos pessoais. Afinal, como dizer que não se lembra que existiam no Senado os atos secretos, banco em empréstimo consignado, 300 servidores ganhando o dobro, horas extras pagas durante o recesso parlamentar, familiares em todos os níveis ocupando cargos e funções fantasmas ? Chega !

Fica, Sarney, porque, como disse o senador Arthur Virgílio: "Quem tem de sobreviver é a intituição Senado Federal", ou não ?

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