Todo dia me pergunto sobre a razão de tantas crianças e adolescentes pegarem um atalho para a violência e o crime. As vítimas, como a menina Gabriela, de 8 anos de idade, que morreu em um assalto em Rio Claro, Interior de São Paulo, turbinam as estatísticas e duvido que incomodem mais o presidente Lula, que não cansa de reproduzir os seus (de)feitos em números nunca antes vistos, bem longe do foco das ações preventivas nas escolas, comunidades estudantis e famílias. Não lí até agora uma linha de projetos reais do governo federal para a melhoria da qualidade da educação, além das bolsas isso e aquilo. Sem alternativas, a redução da maioridade penal voltou à pauta do Congresso Nacional. Esse é o único caminho ?

Educadores responsáveis e comprometidos com a recuperação da educação no Brasil promoveram uma revolução silenciosa durante o governo FHC. Mudanças iniciadas com a reorganização e fortalecimento do papel do INEP, para que o país dispusesse de dados e estatísticas educacionais acreditados. Em seguida definiram os sistemas de avaliação do ensino básico e criaram e implantaram o Fundef, um fundo específico para o desenvolvimento de ações educativas e valorização dos professores.

Com mais dinheiro público carimbado para a educação básica, foi possível criar a TV Escola, elaborar parâmetros curriculares nacionais, avaliar o livro didático e fazer que ele chegasse nas escolas antes do início do ano letivo. Com tudo isso posto e realizado, FHC e o seu ministro Paulo Renato realizaram os programas "Toda Criança na Escola" e "Bolsa-Escola Federal", para universalizar as matrículas e estimular que meninas e meninos permanecessem na escola.

Não houve tempo para o desafio posterior, da melhoria da qualidade da educação. Acho que o presidente Lula acerta quando relembra o afastamento da classe média das escolas públicas, a partir dos anos 60. Não foi uma desistência pura e simples da luta pela melhoria da qualidade do ensino. As escolas particulares mais tradicionais sempre ofereceram melhores resultados para os seus alunos. O descompromisso dos governos antidemocráticos com a educação geral do povo brasileiro, em especial no período entre o golpe de 1964 e o ano de 1985, favoreceram essa migração para escolas pagas.

O desafio agora é para reconquistar a confiança da classe média nas intenções do governo federal em promover melhorias além do discurso fácil. Isso passa por ações preventivas e de valorização da presença e da participação das famílias na vida dos alunos. As crianças e os adolescentes brasileiros precisam dessa atuação verdadeira e decisiva.

A falta de cuidados básicos com a educação submete a sociedade ao risco de produzir seres despreparados para a cidadania. Por isso não vale apenas lamentar o ocorrido com Gabriela, baleada na cabeça por um rapaz de 17 anos que já tinha cometido um outro crime em Rio Claro e libertado pela Justiça. A notícia é chocante e continua repercutindo em todas as mídias.

A educação não é culpada disso. A falta de educação é responsável por essas deformações. Parece muito fácil reduzir de 18 para 16 anos, a idade para que um menor possa ser responsabilizado criminalmente. Faremos justiça, se for assim. Mas quem será capaz de oferecer outro caminho sem escolarização e sem a redução das desigualdades tamanhas neste Brasil ?

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